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Araguaia | 17/07/2009 | Carta Capital

E a raposa cuida do galinheiro
Por Gilberto Nascimento
No auge da ditadura no País, em 1969, a jovem "Alice", de 26 anos, estudante de Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi morar na região do Araguaia, no sul do Pará. Passou três anos ali. Atuava na preparação de um movimento guerrilheiro organizado pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

O Exército cercou a área, em dezembro de 1972. Grávida de sete meses, a militante foi designada para vir a São Paulo fazer um contato com a direção do partido na cidade. Acabou presa. Foi submetida a choques elétricos e espancamentos durante um mês no Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo. Depois, foi transferida para o Pelotão de Investigações Criminais de Brasília, onde continuou a ser torturada.

Um general, Antonio Bandeira (já morto), a avisou que poderia aparecer morta em uma linha do Metrô, atropelada por um carro ou vítima de "suicídio". Seu filho, João Carlos, nasceu num hospital do Exército na capital federal.

Alice, codinome de Criméia Schmidt de Almeida. A militante perdeu na guerrilha o marido, Andre Grabois, o sogro Maurício Grabois e o cunhado Gilberto Olimpio Maria. A irmã Maria Amélia e outro cunhado, Cesar Teles, também foram presos e torturados.

Aos 63 anos, Criméia é hoje uma das mais ativas representantes da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Foi uma das autoras de ação na Justiça para declarar torturador o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos chefes do DOI-Codi.

A ex-guerrilheira critica duramente um grupo de trabalho formado por militares e legistas que garante estar, desde a quarta-feira 8, à caça das ossadas de militantes mortos na região do Araguaia. Por meio de uma portaria do ministro da Defesa, Nelson Jobim, o governo criou o grupo e entregou a coordenação ao Comando do Exército. Essas buscas só foram determinadas depois de a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) ter aberto ação contra o governo brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos por causa da prisão arbitrária, tortura e desaparecimento de 70 militantes e camponeses envolvidos na guerrilha.

O Ministério Público Federal (MPF) e a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República não foram chamados para compor o grupo de trabalho ou acompanhar as buscas no Araguaia. Tampouco participa da iniciativa a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, criada pelo governo por meio da Lei 9.140, de 1995, pelo próprio Jobim, quando era ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso. Aos familiares de mortos e desaparecidos, iria restar o papel de meros observadores ideia prontamente rejeitada. 


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